Lendo o texto Carta aos Educadores, da Olga Nogueira, no Caderno Pedagógico 2 (Currículo e Literatura para Escola Dominical) me veio à mente essa ideia de expectativa x realidade. A impressão que eu tive foi que, quando falamos do currículo da EBD, há um cenário assim: de um lado o que esperamos, desejamos que fosse (expectativa); de outro, o cenário que está diante de nós (realidade).
Pensei então em comentar alguns trechos para compartilhar com vocês as ideias que me ocorreram. Você pode deixar nos comentários as suas impressões também.
O caderno pedagógico que mencionei tem como tema a definição do currículo e a escolha da literatura a serem usados na EBD. No texto de introdução, a Olga Nogueira apresenta algumas reflexões que devem ser levadas em conta:
Trabalhar com educação na igreja, mesmo que seja somente na escola bíblica, não é tarefa fácil. A realidade é cada vez mais complexa e exige de nós a valorização das diferenças, da pluralidade, sem desconsiderar a igualdade e a unidade em Cristo. É claro que todos esses fatores pesam em situações como a seleção dos conteúdos que serão estudados, a metodologia adequada e a literatura de apoio. (p. 5)
De fato, lidamos com muitas variáveis, muitas diferenças, na igreja. A começar, pelo perfil da própria igreja: sua igreja é uma igreja grande do centro da cidade ou uma igreja pequena? Qual é a escolaridade média dos membros? A membresia é mais nova, mais idosa ou equilibrada? Parecem questões bobas, mas só essas perguntas já influenciam bastante na escolha da literatura: a linguagem é adequada ao perfil da membresia? Os temas são relevantes para a igreja (seria interessante falar de redes sociais numa igreja onde mal há energia elétrica?).
É claro que a unidade da fé cristã é comum a todos nós. Temas como salvação, Cristo, história bíblica, etc devem ser estudados por todos os cristãos. Mas o modo como fazemos isso deve variar de acordo com o perfil da igreja. Precisamos falar numa linguagem que o nosso povo entenda.
E aqui é que começa o problema: muitas igrejas, talvez a maioria, adota o currículo das editoras (denominacionais ou não). A cada trimestre ou quadrimestre, revista vai, revista vem sem uma séria reflexão quanto a sua adequação à realidade da igreja local. Não há um currículo pensado especificamente para as necessidades daquela igreja. Não se pensa nos temas que devem ser estudados e em que ordem. Não se avalia se a linguagem usada na revista é adequada às pessoas que a leem.
Mas por que isso ocorre?
Olga Nogueira aponta em seu texto que temos uma tendência ao pragmatismo, ou seja, a não refletir, planejar e executar, mas a buscar modelos prontos que podem ser imediatamente aplicados na igreja. Com o currículo e a literatura, isso é frequente e a autora identifica a origem histórica disso no modelo norte-americano que recebemos, ao menos se considerarmos o contexto batista, a partir do qual a autora escreve. Acredito que o mesmo tenha acontecido em outras denominações, mas sinta-se à vontade para comentar, querido leitor.
Minha hipótese é que recebemos esta herança dos missionários americanos. Quando iniciaram o trabalho de evangelização no Brasil no final do século dezenove, os missionários ensinaram aos brasileiros como ser crente e como ser igreja, sem considerar a cultura que encontraram. Vinte e cinco anos depois, os batistas se reuniram para a primeira assembléia (sic) da Convenção Batista Brasileira em 1907. A primeira iniciativa foi criar a Junta de Escola Dominical para produzir revistas e material didático. Logo vieram os manuais escritos pelos missionários. Manual para Escola Dominical, manual para o trabalho de senhoras e de homens, manual para professores de crianças, de adolescentes, de jovens e adultos.
Toda essa produção foi muito importante para estabelecer um referencial de educação cristã. Podia-se encontrar orientações sobre os equipamentos necessários nas salas e até mesmo sobre o tamanho das mesas e cadeiras adequados para cada faixa-etária. As igrejas que tinham recursos financeiros puderam equipar devidamente as salas seguindo as orientações. No entanto, a maioria das igrejas (naquela época e ainda hoje) estava bem distante do ideal apresentado nos manuais. Mas os manuais foram eficientes num aspecto: produziram uma dependência intelectual. (grifo meu)
Os educadores formados até o final da década de oitenta foram habilitados para seguir os manuais e implementar os programas propostos por eles nas igrejas. (...) As igrejas esperavam educadores que pudessem capacitar líderes para fazer funcionar todo o Programa de Educação Religiosa proposto pela denominação: Escola Dominical, organizações missionárias e uniões.
Na década de noventa a discussão girou em torno de mudança de paradigmas, pós-modernidade, globalização, etc. O mundo estava mudando rapidamente e a igreja precisava estar preparada para se posicionar frente aos novos desafios. Nenhum manual poderia responder a complexidade da igreja no século XXI e muitos desses educadores formados se sentirem despreparados. A maioria não aprendeu a pesquisar, refletir e elaborar projetos para responder a realidade local. (p. 5-6)
Um sistema foi implantado: um modo de ser educador, de dar aula, de usar a literatura. Havia um modelo e nossa tarefa como líderes ou diretores da EBD era simplesmente segui-lo. Mas, mesmo na era dos manuais, nem todos conseguiam seguir o modelo fielmente. A realidade se impunha à expectativa.
Hoje, vivemos num mundo em constante e rápida mudança. O acesso ao conhecimento formal (escola) quanto informal (mídias, etc) aumentou. E nós, como líderes, o que faremos? Ficaremos presos à aplicação irrefletida dos modelos do passado?
O que fazer?
Querido diretor, recomendo fortemente que, se você ainda não fez isso, reflita sobre o modelo de educação que está sendo oferecido em sua igreja.
* Converse com seu pastor e juntos identifiquem as necessidades específicas da sua igreja.
* Vocês podem usar uma pesquisa de opinião para ajudar a identificar essas necessidades entendendo o que os alunos pensam sobre a EBD.
* Converse também com os educadores. São eles que estão na linha de frente do ensino e conhecem bem a realidade.
* Tracem um plano de como o Ministério de Ensino pode ajudar a atender a essas necessidades. Talvez o sistema de módulos possa ajudar.
* Selecione ou produza uma literatura que auxilie nesse processo.
E conte conosco nesse processo!
Que Deus te abençoe e te dê sabedoria!

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