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A mulher adúltera e o escândalo da graça

O episódio da mulher pega em adultério, narrado no Evangelho de João (Jo 8.1-11), é daqueles que nos desestabilizam. Porque não fala apenas do pecado dos outros, mas do nosso próprio desejo de condenar. Fala sobre justiça e misericórdia, sobre como a religião pode ser usada como arma e como Jesus desconstrói isso com um gesto silencioso.


Vamos juntos refletir sobre essa passagem tão conhecida, mas que sempre tem algo novo a nos ensinar?
 

O contexto religioso: Jesus como pedra no sapato


Àquela altura do ministério de Jesus, ele já estava incomodando muita gente. Não era só pelos milagres, mas pela autoridade com que ensinava, pela forma como incluía os rejeitados — como samaritanos e publicanos — e pela ousadia de purificar o templo, expondo a hipocrisia religiosa (Jo 2.13-22). As multidões queriam proclamá-lo rei, enquanto os fariseus e escribas queriam silenciá-lo a qualquer custo. Eles não estavam interessados em justiça, mas em encontrar uma armadilha.

É nesse cenário que surge o episódio da mulher adúltera. Uma encenação preparada para pegar Jesus em contradição. Mas, como veremos, o que eles não esperavam era que o foco da história mudasse completamente de lugar.
 

A situação: uma armadilha pública


Jesus estava no templo, ensinando como de costume (Jo 8.2), quando foi interrompido por um grupo de escribas e fariseus que arrastavam uma mulher, pega “em flagrante adultério” (Jo 8.3). A cena já começa cheia de ruído. Como exatamente ela foi surpreendida? Era um caso notório que todos ignoravam até então? Uma armação? Ou seria apenas uma tentativa de criar um espetáculo público de vergonha?

E mais: cadê o homem? Porque, segundo a Lei de Moisés, em casos de adultério, ambos os envolvidos deveriam ser punidos com a morte:

“Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher do seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados” (Lv 20.10).

“Se um homem for surpreendido deitado com a mulher de outro, os dois terão que morrer” (Dt 22.22).

O que vemos aqui é uma distorção da lei, usada para expor uma mulher e tentar encurralar Jesus. O pecado sexual é tratado como espetáculo. E a mulher, como bode expiatório.

Para refletir: em que situações, ainda hoje, o peso da culpa é lançado sobre os mais vulneráveis, enquanto outros saem ilesos?

A acusação: distorcendo a Lei

A frase dos acusadores soa acusatória e seletiva: “A Lei de Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres” (Jo 8.5). O uso do plural genérico esconde o fato de que só ela está ali, sozinha, carregando a culpa.

Mas eles não estavam interessados em justiça. Queriam saber: “E o Senhor, o que diz?” A pergunta não é sincera. É uma tentativa de armar uma cilada. Se Jesus concordasse com a execução, perderia a reputação de misericordioso. Se discordasse, seria acusado de desrespeitar a Lei.

Para refletir: Será que, às vezes, usamos a Bíblia como pretexto para afirmar nossas próprias vontades, ao invés de buscar o coração de Deus?

A resposta de Jesus: silêncio e verdade


É nesse momento que Jesus se abaixa e começa a escrever no chão. É a única vez em que a Bíblia registra Jesus escrevendo algo. O que será que ele escreveu? Ninguém sabe ao certo. Mas o gesto tem força. Talvez ele estivesse desviando a atenção da mulher. Talvez estivesse apenas desarmando a tensão.

Diante da insistência, Jesus se levanta e responde: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra” (Jo 8.7). Um silêncio toma conta do ambiente. Um a um, os acusadores vão embora. Do mais velho ao mais novo. A cena se desfaz.

Quem tinha não moral para acusar, foi embora. E o único que poderia condenar, não o faz.

Para refletir: Quantas vezes, ao nos sentirmos justos, acabamos apontando o dedo para os outros, sem olhar para as nossas próprias falhas?

A resposta de Jesus à mulher: perdão e recomeço

Jesus, então, se volta para ela. Mas repare: ao contrário dos fariseus, que falavam dela, Jesus fala com ela.

Ele a chama de “mulher”, o mesmo termo carinhoso que usou com a mãe em Caná (Jo 2.4). E pergunta: “Onde estão os teus acusadores? Ninguém a condenou?” Quando ela responde que não, Jesus diz: “Nem eu te condeno. Vai, e não peques mais.” (Jo 8.10-11)

Jesus não ignora o pecado. Mas também não a condena. Ele mostra um novo caminho. Dá à mulher algo que os acusadores nunca poderiam dar: dignidade.

Para refletir: Quando falamos de arrependimento e perdão, estamos prontos para oferecer às pessoas a chance de recomeçar? Ou esperamos que elas carreguem para sempre o rótulo do erro?

Conclusão: do julgamento à graça

Essa história não é só sobre uma mulher adúltera. É sobre nós. Sobre como nos colocamos, tantas vezes, no lugar dos fariseus, prontos para julgar, seguros da nossa própria moralidade. Mas é também sobre o Cristo que nos olha nos olhos, nos chama pelo nome e nos convida a começar de novo.

A mulher sai dali com algo que só a graça de Deus pode oferecer: uma nova história. Que a gente aprenda com Jesus a olhar menos para os pecados dos outros e mais para as possibilidades de recomeço que a graça oferece.

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